
Relato de Jarleo Barbosa, diretor do filme, sobre o processo de montagem.
Montar o Faltam duas quadras foi o meu maior aprendizado de cinema até agora, mais que quatro anos de faculdade, mais que todos os filmes que trabalhei, mais que os cursos que fiz, os filmes que vi. Mais. Estar ali com todas aquelas cenas soltas, precisando encadeá-las de uma forma que fizesse sentido e resultasse em algo esteticamente agradável, foi pra mim um grande aprendizado. É na montagem que você vê o quanto se acertou ou errou durante a gravação. É na montagem que você percebe que aquela cena tão dificil de rodar, tão cara pra produção, com a luz tão bonita…simplesmente não funciona. Não ajuda a história.
Nesse momento aparece o papel fundamental do montador ou, no meu caso, da montadora. Eu partilho da opinião que é fundamental o filme ser montado por uma pessoa que não tenha participado do set. As diárias de gravação, a dificuldade de rodar o plano, a alegria de um take bem feito…tudo isso nubla a visão. O olhar de uma pessoa de fora (claro: uma pessoa especializada, delicada, capaz) ajuda a entender o que serve e o que não serve pra história. Um olhar que não tenha vínculo com nada que tenha acontecido no set, um olhar que pense a história por ela mesma. Ver demais cega. E às vezes o diretor pode ficar cego de seu próprio filme, de tanto sabê-lo. Pode ser que pra outras pessoas até funcione montar seu próprio filme, mas eu que não estou escrevendo um livro, nem pintando um quadro, preciso de outros olhos pra poder ver.
E com a Lika, montadora do filme, foi assim.
Inicialmente eu deixei que ela montasse o filme como ela quisesse. Claro, com o roteiro em mãos. Disso resultou o primeiro corte que me veio com gratas surpresas. Os próximos seis cortes vieram de um esforço conjunto de tentar colocar cada coisa em seu específico lugar. Aí eu ficava lembrando do Guimarães Rosa dizendo: “Não se pode ter medo de cortar”. O exercício que fizemos foi de tirar tudo o que não é essencialmente importante pra trama. Acho que assim a gente buscava o que era a gênese da história, o que lhe era essencial. Não que buscássemos um filme pragmático, mas também não queríamos ser gratuitos.
Mas não foi um exercício só de cortar, mas de colocar também, de achar sentido naquelas cenas perdidas no recôncavo mais escondido do seu HD. Atribuir significado a uma cena colocando-a entre duas outras. Uma tentativa de que nenhuma cena existisse sozinha, que mantivesse sempre relação com todas as outras.
Desse modo o roteiro acabou virando um guia, um norte. Em nenhum momento ele nos escravizou. Era a gente que mandava nele, não o contrário. Porque algumas coisas ficam bonitas assim no papel e acreditando que vão ficar bonitas no filme você veste o ator, o ilumina, diz ação, ele dá a fala dele e você diz corta, achando que está tudo muito bom. Mas depois, na solidão da sala de montagem, já destituído do calor do momento, você, como autor, precisa ter o coração muito aberto pra mexer no roteiro, na ordem, na lógica, na estrutura. Entendendo sempre que mais importante que qualquer arroubo poético é a história.
Tentei me manter o máximo possível atento e aberto ao novo. Entendendo que entre o que se pensa e o resultado existe um abismo. E é bom que seja assim, porque se for pra fazer um filme sem surpresa, eu prefiro nem fazer. Porque contar uma história é também olhar pra dentro e se surpreender. E se for pra eu não me surpreender, me renovar, me refazer, eu prefiro nem ser.
Jarleo Barbosa
Diretor e roteirista

São Paulo, 09 de setembro de 2011.
Querida Clara,
Quando li sobre ti, eras um adorável lampejo; de largas asas. Acreditei em você; te adotei. Não sei por quantas quadras a gente passa em quatro anos, mas finalmente te conheci. Você e Lucas são agora meus amigos íntimos; reais. Sei que é piegas, mas não consigo deixar o hábito de exprimir, por quantas quadras forem, o que as corridas da vida me ensinaram: peço desculpas se te machuquei demais, se te cortei a mais, ou deixei aquele suspiro mais do que era preciso pra te revelar; clara, nítida…
Me desculpe se te apaguei da minha rotina por algum tempo. Não foi porque eu quis. Verdade: nunca estive sozinha enquanto os tempos em suas quadras goianas e os paralelos das minhas paulistanas surgiram. O Jarleo sempre acreditou que você vive mais que os tempos de Adélia Prado, simples, definitivos. E depois de terem me buscado, entramos no mesmo taxi. Foi assim que você trouxe essa panaceia.
Hoje vejo você e Lucas como jovens, prestes a enfrentar o mundo. Ainda crús, cheios de expectativas, como é de todo humano ser. Penso que fiz minha contribuição pras suas verdades, seus jogos de cena, suas lágrimas e sussuros. E não fique chateada com Lucas: ele tem bom coração. Aliás, os olhos dele falam muito mais do que as palavras que ele talvez não tenha conseguido lhe devolver. Arquitetos são sonhadores! Fiz faculdade de Arquitetura… Bons tempos! Por coincidência, quando faltavam dois anos, desisti. A gente escolhe por quais quadras passa na vida, e, em claros momentos, duvidamos que a caminhada seja o ultrapassar medos, acordar dos sonhos! Mas você, Clara, sempre praticou essa corajosa travessia! Ah, Clara!…
Se essa carta fosse um desabafo, viraria livro. Talvez um pocket book, porque alguém iria cortar e cortar e cortar, até virar síntese, até virar curta de curta, verso de poema, recortes colados das suas memórias chacoalhadas em notebook por Consolações e Rebouças; e depois, comida árabe em final de dia; e confabulações…
Não há onde escrever minhas gratas palavras redundantes, úteis ao texto desnecessário para ilustrar o que refrigera minha alma. Ele é como a sua janela: larga, horizontal, infinda, luminosa, que já não cabe mais em mim. E eu sei que você me entende.
Então, é isso!
Agradeça também ao Jarleo. Se não fosse ele, eu não conseguiria!
Mande beijos ao Lucas, e a todos os outros!
Com carinho,
Lika
As anotações da prova de figurino
A opção por um trabalho completo de figurino, isto é, de um desenho de figurino que adiante pudesse ser costurado, lavado e passado por um tratamento, sempre foi um norte deste trabalho. O tecido feito para. O corte adequado para. O figurino que nunca vestiu ninguém, o figurino destinado para.
É fácil, por exemplo, perceber a que veio a cor destes figurinos. São cores pálidas, férreas, vinculadas ao universo hospitalar, manhã de neblina, acinzentada, cor de asfalto, por onde tenciona questões que afastam os dois personagens.
Lembro do primeiro encontro com a Bella para as medidas. Durante um bom tempo o Jarleo insistiu em uma Clara com calça e eu fui pedindo um vestido, insistindo na ideia de uma feminilidade, de um grau de parentesco do figurino da personagem com um uniforme de enfermeira, questão chave do roteiro. Comentei todo este processo com a Bella. Nesta mesma reunião de figurino, resolvi buscar adaptações para o cabelo. A Bella vinha de um outro trabalho com o cabelo bem castanho, o que não contribuía para uma maquiagem pálida, um ar de palidez. Escureceríamos o cabelo. Então, movendo o cabelo dela para checar o comprimento dos ombros, uma surpresa: um par de brincos azuis-esverdeados, ideal para a Clara, que lembravam os botões do vestido da Clara, um empréstimo da Bella para a personagem.
A vez do Leo também foi curiosa. Na prancha de referências de figurino, anexei imagens de tênis allstar e logo fui barrado pelo diretor. O Lucas não poderia usar um calçado tão street, tão fácil. O visual do Lucas acompanhou muito observações que fiz de alguns amigos mais sérios, desses que tem mais de dez camisas de bons cortes, calças mais retas, por exemplo.
O figurino de Faltam é um flash por já existir uma história anterior à do filme, anterior à diegese.
Benedito Ferreira - Diretor de arte e figurinista
As cores…
Preparação.
Thiago, Microfonista.
Antes que o sol se ponha.